Hoje, no Centro Nacional de Cultura, o Curso Livre coordenado por Rosário Alçada Araújo, teve como orador convidado o especialista em Banda Desenhada, João Paiva Boléo. Pelas suas palavras, percorremos as primeiras décadas do séc.XX, especialmente as de 20 e 30, e assistimos, ainda que de forma mediada à grande revolução que então se operou na Banda Desenhada. Datas, nomes de periódicos, referências bibliográficas e autores, muitos autores, desfilaram pela sala. No final da sessão, contudo, Paiva Boléo deixou a certeza de que tudo o que foi dito foi pouco, muito pouco, perante tantos talentos, tantos traços, tantas rupturas e encontros que se entrecruzaram nas páginas dos suplementos infantis, e não só.
A reter, como base para novas pesquisas, o facto de nascer, em 1915, a dupla
Quim e Manecas, de Stuart Carvalhais, no suplemento Cómico do Jornal
O Século. Esta Banda Desenhada saía numa lógica de continuidade (como acontecia com o cinema, em que os filmes estavam seccionados), destinava-se a adultos, pelo sentido satírico da crítica social e política da época, nacional e internacional, e tinha balões, recurso gráfico extraordinariamente progressista na Europa, em que a maioria das vozes defendia a legenda e renegava os balões. Todavia, estas personagens agradavam também a crianças, pela aproximação que sentiam às suas brincadeiras e pelo sentido amplificador das suas aventuras. Os vários níveis de leitura enfatizam a modernidade do autor, que não se limita a moralismos panfletários e pelo contrário traz para Portugal as influências dos percursores internacionais da Banda Desenhada.
Outro dos nomes de referência desta geração, republicana e modernista, é Cotinelli Telmo, arquitecto de profissão, a quem se atribui a criação do modelo de jornalismo infanto-juvenil, pelo seu trabalho no ABCzinho. O autor, para além do traço moderníssimo, foi também um descobridor de talentos, entre os quais se contam Carlos Botelho e Cardoso Lopes.
A Primeira República, sabe-se hoje, foi muito importante para o desenvolvimento de valores cívicos essenciais, como os direitos das mulheres e a valorização da educação junto de uma população esmagadoramente analfabeta.
O aparecimento dos suplementos infantis contribuiu para o desenvolvimento da Banda Desenhada, que ali surge integrada, em muitos casos associada a adaptações da literatura clássica para jovens.
Nos anos 30 já é possível reconhecer duas tendências da BD portuguesa: uma, herdeira da própria tradição literária, que envereda pelas adaptações, muitas delas de carácter histórico; outra, de aventuras, que vai beber a sua influência aos westerns e outras grandes epopeias cheias de ritmo e acção.
Depois da incontornável importância de ABCzinho, surgem nos anos 30 O Senhor Doutor e Papagaio, revistas com mais meios técnicos e financeiros e onde estas tendências acabam por cruzar-se. É nesta década que os autores de Banda Desenhada passam a ser reconhecidos em primeiro lugar como tal, e só depois por outras artes que dominem. Dois nomes paradigmáticos desta autonomização são os de José Ruy e José Garcez, que se notabilizaram pelas suas adaptações históricas e literárias.
Entre 30s e 40s três novos nomes trilham os caminhos desta arte: Fernando Bento, Eduardo Teixeira Coelho e Vitor Péon. O primeiro dedicando-se, com uma vertente humorística, às adaptações de clássicos e o terceiro a aventuras. Eduardo Teixeira Coelho conjugava as duas tendências.
Essencial é Adolfo Simões Muller na edição da imprensa infantil portuguesa e na sua ligação à literatura. É ele o editor da revista Cavaleiro Andante, na década de 50, onde a Banda Desenhada já é dominante, em relação às outras rubricas, como os contos, as construções de armar ou o correio dos leitores. Nesta revista encontram-se participações de autores internacionais, sendo uma porta de acesso ao mundo, para o leitor mais novo e mais velho. Hergé e Franco Caprioli são dois dos seus nomes mais sonantes.
A história desta época está ainda um pouco inacessível, com poucas publicações disponíveis. Entre elas, consta
Quim e Manecas, 1915-1918, de Stuart Carvalhais, numa edição da Tinta da China, com organização e prefácio do próprio João Paiva Boléo. Enquadrados em duas exposições da Fundação Calouste Gulbenkian, vieram a lume os volumes
A Banda Desenhada Portuguesa 1914-1940 e
A Banda Desenhada Portuguesa 1940-1980, com textos de João Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro, editados pela F.C.G.